Artigo

Limiar entre razão e loucura

julho de 2026
5 min
Limiar entre razão e loucura

Tenho dormido e acordado com Mar Garcia Pug.

Mulher que gerou em sua barriga dois bebês ao mesmo tempo: quatro braços, quatro pernas, duas cabeças, quarenta dedos, duas línguas, dois corações, muitos centímetros de pele e ossos.

Entrou em trabalho de parto recheada com dois vertebrados atravessando sua costela e, em uma distância de minutos, já não tinha mais ninguém na barriga.

Os bebês agora estavam no mundo, no outro mundo que não dentro dela.

Pra dar conta desse acontecimento que parece desafiar a razão e dar um nome para isso que parece impossível, escolheram dizer que essa mulher teve uma gravidez gemelar, pariu gêmeos e agora é mãe de duas pessoas com a mesma idade.

Imagino como é reencontrar o eixo do equilíbrio para se sustentar de pé depois de parir duas pessoas.

Imagino ainda como é tentar dar palavras a este acontecimento sem perder o juízo.

É desarrazoado.

Escapa à lógica.

Escapa daquilo que a língua consegue tocar num primeiro momento.

No mesmo dia que essa mulher pariu seus dois filhotes, se tornou deputada do Departamento Espanhol e enlouqueceu.

Tempos depois, ela escreve essa loucura, escreve com a voz da loucura e pare o livro:

A História dos Vertebrados.

E, pra tentar dizer o indizível, diz:

“Eu dera à luz um novo mundo, porque desaparecera aquele em que meus filhos não existiam, e, a partir dali, tudo começava.

O parto abriu a porta que conecta o ser e o não ser, a vida e a morte, a luz e a escuridão, e eu nunca mais poderei fechá-la.”

O parto, o limite das palavras, é um acontecimento definitivo.

No livro, Mar percorre a história de outras mulheres que, depois do parto, também enlouqueceram.

Ao lê-las, tive a sensação de que poderia ter sido eu.

Ela conta a história de uma mulher que, após o parto, vociferava que dera à luz cães.

Esse outro ser que sai do nosso útero é sempre um outro, radicalmente outro.

Como algo que sai de mim não sou eu?

Me lembro de que minha filha nasceu com muitos pelos no rosto, nos braços, nas pernas e nas costas.

Nas minhas alucinações puerperais, neste estado de névoa, me recordo de pensá-la numa adolescente peluda.

Cheguei a fazer pesquisas no Google e descobri que alguns bebês nasciam com muitos pelos no rosto, síndrome do lobisomem.

Pensei como seria doloroso pra ela se ela escolhesse tirar todo aquele pelo que envolvia seu corpo. e o medo de ela não ser amada, escolhida por alguém, porque me disseram sobre a impossibilidade de que uma mulher pode ser amada com pelos. eu os tiro com frequência.me submeto a essa tortura sem me perguntar para quê.

Com o tempo, caíram os pelos das costas e o estranhamento inaugural também. E ela pôde, então, ser o meu bebê.

Mar me autoriza a escrever as imagens, sonhos e alucinações puerperais que ficaram em segredo.

Quando grávida, uma paciente me contou que tinha uma gata que teve filhotes, sete.

Os trancou, mãe e gatinhos, no banheiro para que não fugisse enquanto ela, a tutora, estava fora.

Quando chegou em casa à noite e abriu a porta do banheiro, não havia mais gatinhos.

Apenas uma gata adulta, fêmea, satisfeita.

Naquele mesmo dia, sonhei que comi gatos.

Eram sete também.

Os cozinhei na panela de pressão.

Com bastante tempero, tomate e cebola.

Acordei do sonho sentindo o gosto forte daquela refeição.

Minha filha adora gatos.

Chama por todos dobrando um pouquinho os joelhos, fazendo gesto com os dedinhos e psipsipsipsi com a boca.

A experiência da matrescência não é apenas um evento biológico, mas um colapso ontológico que desafia a razão e a lógica convencional.

As palavras comuns falham em descrever a magnitude de gestar e parir "quarenta dedos e dois corações".

O delírio surge como um meio de tentativa de organizar e dar conta deste acontecimento que parece impossível.

Nesse estado de "névoa", as alucinações puerperais não são meros sintomas, mas funcionam como o delírio elaborador: uma ponte necessária para processar o medo do "outro radical" que acaba de nascer. Seja na imagem de minha filha como um filhote de lobisomem ou daquela mulher que dizia ter parido cães. Ou seja na cena de eu devoradora de filhotes.

(se sentasse para conversar com a mulher que eu luz a cães, talvez diríamos que estávamos tentando elaborar o terror que seria rejeitar um filho e se a gata que comeu seus filhotes miasse um miado que eu pudesse entender, a contaria meu sonho perturbador de comer gatos e miaria um choro do medo de não dar conta de sustentar, alimentar e amar meu bebê.)

A subjetividade utiliza essas imagens para tentar dizer o indizível e nomear o estranhamento de um corpo que agora se divide entre o eu e o não eu.

Escrever a partir dessa "voz da loucura", como faz Mar Garcia Puig, é um ato de autorização que permite à mulher habitar a porta aberta pelo parto sem se perder definitivamente.

Este novo lugar que se habita não é o retorno à sanidade anterior, mas a aceitação de que o delírio foi a ferramenta capaz de costurar os fragmentos de um mundo que desapareceu para dar lugar a outro.

Conto neste escrito também que minha filha gosta do livro da catalã.

Na capa, uma mãe de cabelos pretos segura um filhote de cabelos dourados.

Meu bebê aponta pro outro bebê e diz:

"neném, neném".

Abre o livro e lê na própria língua em voz alta e gargalha como se tivesse lendo algo engraçado ou como se soubesse de um mesmo segredo que só se sabe quando se chega mulher neste mundo.

Fico pensando se não é essa mesma língua que Mar encontrou para escrever aquilo que parecia impossível de dizer.

No riso de Catarina, que reconhece o "segredo" nas páginas de um livro, se revela que essa linguagem própria, embora escape à lógica, é a única capaz de sustentar a verdade de quem agora vive com a porta entre a vida e a morte permanentemente aberta.

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